Conte-nos
um pouco de sua trajetória profissional.
Fiz
mestrado em Educação na UFMG e doutorado na Universidade de Valência, Espanha.
Hoje dou aulas na Faculdade de Educação da UFMG e coordeno o curso de Formação Intercultural para Educadores Indígenas. Trabalho com
Pedagogia de Projetos há muito tempo.
E
quando tudo começou?
Morei
na zona rural de Ribeirão Cascalheira, Mato Grosso. Fui para ficar um ano e
acabei morando lá durante dez (de 1979 a 1989). Trabalhava numa escola que
apoiava a luta dos trabalhadores. Eles eram migrantes vindos do Nordeste e,
depois de serem expulsos de Goiás, foram para o Mato Grosso. Uma das formas de
luta desses trabalhadores era a educação.
Você
dava aula para eles?
Fui
professora, diretora e secretária municipal de Educação de Ribeirão
Cascalheira. Foi nessa cidade que construí minha matriz educativa e aprendi a
ser professora. Ali trabalhei, pela primeira vez, com projetos. Eu alfabetizava adultos e também um grupo de mulheres
camponesas. Os professores de 1ª a 4ª séries eram meus alunos de 5ª a 8ª. A
maioria das escolas era de pau-a-pique e feita pela comunidade. Algumas
funcionavam na casa do professor.
Você
pode nos contar sobre um dos projetos realizados nas escolas dessa cidade?
O Mato Grosso
está localizado numa região de transição entre o Cerrado e a Amazônia. A
caminho da escola, os alunos observavam a natureza. Um professor chamado Chicão, que lecionava na classe multisseriada
de 1ª a 4ª, desenvolveu um projeto com os alunos que se baseava na seguinte
questão: “Qual a diferença dos ninhos de passarinho em uma árvore de Cerrado e
em uma árvore da mata?”. As crianças liam e produziam textos em que eram
trabalhados vários aspectos ligados à vegetação e ao ecossistema.
Para
resolver essa questão, os alunos precisam ter acesso a várias áreas de
conhecimento, não é?
Claro!
E muitas situações de aprendizagem surgem. Eu me lembro de ter assistido a uma
aula em que o professor olhava para uma árvore altíssima e perguntava para os
alunos: “Como podemos medir o tamanho dessa árvore sem usar fita métrica?”.
Então surgiram várias hipóteses, até que alguém pensou na sombra. Para
trabalhar com a sombra é preciso usar instrumentos matemáticos que variam
conforme a faixa etária dos alunos. Todas as disciplinas podem ser usadas para
responder o problema proposto. Problema é, antes de tudo, algo desafiador. Não
é só dificuldade.
O
que é a Pedagogia de Projetos?
Sempre
que trabalho com formação de professores costumo dizer que o nome interessa
muito pouco. O que entendo por Pedagogia de Projetos é uma determinada postura
pedagógica e uma problematização que gera situações
de aprendizagem. Como é que nós aprendemos alguma coisa? Quando existe algo que
sabemos e que temos de resolver. É aí que vem o processo de aprendizagem. A
escola precisa criar bons problemas para que os alunos aprendam.
O
que você chama de bons problemas?
O mundo
nos fascina, instiga e traz curiosidades. São coisas que a gente procura
compreender. Penso que a escola tem a função básica de possibilitar que o
estudante comece a questionar o mundo em que vive e passe a se perguntar sobre
ele, comece a olhá-lo de uma forma interessante. Essa é a função da educação
escolar. Mas, infelizmente, a escola não tem cumprido seu papel. E aí a gente
fala que os meninos não têm interesse. No entanto, a curiosidade faz parte da
natureza infantil.
De
quem deve partir a problematização, do professor ou
do aluno?
Há um
entendimento equivocado de que trabalhar com projeto é partir do interesse da
criança. É fundamental que o professor proponha, sim, um tema, até para a
ampliação do universo de conhecimento do aluno. Essa é a sua função. Mas a
proposição deve ser na perspectiva de criar boas situações problematizadoras, e não no sentido de dar respostas. O tema pode vir do
professor, das crianças e também da conjuntura, porque o mundo nos traz
questões o tempo inteiro. Por exemplo, temos hoje a questão do aquecimento
global. Quais são os problemas relativos a esse tema que podemos investigar? O
desafio de ser professor é transformar temáticas – que podem vir dele
mesmo, dos alunos ou da própria conjuntura – em problemas que são dos alunos.
E
isso tem a ver com o universo cultural, a faixa etária, a região em que os alunos
vivem...
Sim.
Para uma criança da cidade grande, sobressaem questões como o trânsito e a
emissão de carbono. Já em uma aldeia indígena, onde não chove há oito meses, a
preservação das nascentes dos rios prevalece. Dentro de uma mesma temática os
problemas são muito diferentes, dependendo da realidade da escola. Por isso,
cada projeto é único. Não dá para tomar bons modelos e sair fazendo reprodução.
Pedagogia de Projetos é um processo.
O caminho a ser percorrido nem sempre é o previsto. Costumo dizer que, se o
projeto sai exatamente como foi planejado, há
alguma coisa errada.
Quais
são os equívocos mais comuns nos trabalhos de escolas que adotam a Pedagogia de
Projetos?
Há
escolas que trabalham com projetos a partir de datas comemorativas, como carnaval,
Páscoa, festa junina, folclore, Dia da Árvore. Só isso não garante o
desenvolvimento de pesquisas com o envolvimento dos alunos. Outro risco é o espontaneísmo. Os meninos vão fazendo o que querem, o que gostam, e o
professor não segue nenhuma linha. Na Pedagogia de Projetos tem que haver um
contrato, um combinado daquilo que se quer investigar e por quê. É algo que
demanda estudo e envolvimento.
Como
avaliar um projeto?
Entendo
a avaliação como tomada de consciência do que acontece durante todo o processo.
Por isso é muito importante que o caminho percorrido seja visualizado através
de registros – nas paredes da sala de aula, numa pasta, nos cadernos dos alunos
e em rodas de conversa, por exemplo. Ao avaliar, tomamos consciência do
processo vivido, levantamos o que foi ou não aprendido. Assim, o trabalho pode
ser retomado o tempo inteiro. Podemos parar e rever o que fizemos. Entender por
que estamos fazendo isso ou aquilo. É importante ir demarcando quais
competências estão sendo desenvolvidas. Quanto mais novo o aluno, mais
importante é verbalizar o que está sendo feito. O tempo do projeto termina
quando a problematização inicial é respondida.