Lúcia Leite
Entrevista

Entrevista

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Lúcia Leite



‘A escola precisa criar bons problemas’

“A escola precisa criar

bons problemas”













Professora da Faculdade de Educação da UFMG, Lúcia Leite trabalha com Pedagogia de Projetos desde os anos 80

Professora da Faculdade de Educação da UFMG, Lúcia Leite trabalha com Pedagogia de Projetos desde os anos 80. Lecionou em classes multisseriadas na zona rural de Ribeirão  Cascalheira, no Mato Grosso. “Foi lá que construí minha matriz educativa”, conta. Em entrevista ao Dimensão na Escola, ela diz que a escola precisa criar bons problemas  para que os alunos aprendam. Para Lúcia, Pedagogia de Projetos é uma postura pedagógica que parte de uma problematização. Ao enfrentar o desafio em busca da solução, constrói-se a aprendizagem


Entrevista: Lúcia Leite

Conte-nos um pouco de sua trajetória profissional.

Fiz mestrado em Educação na UFMG e doutorado na Universidade de Valência, Espanha. Hoje dou aulas na Faculdade de Educação da UFMG e coordeno o curso de Formação Intercultural para Educadores Indígenas. Trabalho com Pedagogia de Projetos há muito tempo.

 

E quando tudo começou?

Morei na zona rural de Ribeirão Cascalheira, Mato Grosso. Fui para ficar um ano e acabei morando lá durante dez (de 1979 a 1989). Trabalhava numa escola que apoiava a luta dos trabalhadores. Eles eram migrantes vindos do Nordeste e, depois de serem expulsos de Goiás, foram para o Mato Grosso. Uma das formas de luta desses trabalhadores era a educação.

 

Você dava aula para eles?

Fui professora, diretora e secretária municipal de Educação de Ribeirão Cascalheira. Foi nessa cidade que construí minha matriz educativa e aprendi a ser professora. Ali trabalhei, pela primeira vez, com projetos. Eu alfabetizava adultos e também um grupo de mulheres camponesas. Os professores de 1ª a 4ª séries eram meus alunos de 5ª a 8ª. A maioria das escolas era de pau-a-pique e feita pela comunidade. Algumas funcionavam na casa do professor.

 

Você pode nos contar sobre um dos projetos realizados nas escolas dessa cidade?

O Mato Grosso está localizado numa região de transição entre o Cerrado e a Amazônia. A caminho da escola, os alunos observavam a natureza. Um professor chamado Chicão, que lecionava na classe multisseriada de 1ª a 4ª, desenvolveu um projeto com os alunos que se baseava na seguinte questão: “Qual a diferença dos ninhos de passarinho em uma árvore de Cerrado e em uma árvore da mata?”. As crianças liam e produziam textos em que eram trabalhados vários aspectos ligados à vegetação e ao ecossistema.

 

Para resolver essa questão, os alunos precisam ter acesso a várias áreas de conhecimento, não é?

Claro! E muitas situações de aprendizagem surgem. Eu me lembro de ter assistido a uma aula em que o professor olhava para uma árvore altíssima e perguntava para os alunos: “Como podemos medir o tamanho dessa árvore sem usar fita métrica?”. Então surgiram várias hipóteses, até que alguém pensou na sombra. Para trabalhar com a sombra é preciso usar instrumentos matemáticos que variam conforme a faixa etária dos alunos. Todas as disciplinas podem ser usadas para responder o problema proposto. Problema é, antes de tudo, algo desafiador. Não é só dificuldade.

 

O que é a Pedagogia de Projetos?

Sempre que trabalho com formação de professores costumo dizer que o nome interessa muito pouco. O que entendo por Pedagogia de Projetos é uma determinada postura pedagógica e uma problematização que gera situações de aprendizagem. Como é que nós aprendemos alguma coisa? Quando existe algo que sabemos e que temos de resolver. É aí que vem o processo de aprendizagem. A escola precisa criar bons problemas para que os alunos aprendam.

 

O que você chama de bons problemas?

O mundo nos fascina, instiga e traz curiosidades. São coisas que a gente procura compreender. Penso que a escola tem a função básica de possibilitar que o estudante comece a questionar o mundo em que vive e passe a se perguntar sobre ele, comece a olhá-lo de uma forma interessante. Essa é a função da educação escolar. Mas, infelizmente, a escola não tem cumprido seu papel. E aí a gente fala que os meninos não têm interesse. No entanto, a curiosidade faz parte da natureza infantil.

 

De quem deve partir a problematização, do professor ou do aluno?

Há um entendimento equivocado de que trabalhar com projeto é partir do interesse da criança. É fundamental que o professor proponha, sim, um tema, até para a ampliação do universo de conhecimento do aluno. Essa é a sua função. Mas a proposição deve ser na perspectiva de criar boas situações problematizadoras, e não no sentido de dar respostas. O tema pode vir do professor, das crianças e também da conjuntura, porque o mundo nos traz questões o tempo inteiro. Por exemplo, temos hoje a questão do aquecimento global. Quais são os problemas relativos a esse tema que podemos investigar? O desafio de ser professor é transformar temáticas que podem vir dele mesmo, dos alunos ou da própria conjuntura – em problemas que são dos alunos.

 

E isso tem a ver com o universo cultural, a faixa etária, a região em que os alunos vivem...

Sim. Para uma criança da cidade grande, sobressaem questões como o trânsito e a emissão de carbono. Já em uma aldeia indígena, onde não chove há oito meses, a preservação das nascentes dos rios prevalece. Dentro de uma mesma temática os problemas são muito diferentes, dependendo da realidade da escola. Por isso, cada projeto é único. Não dá para tomar bons modelos e sair fazendo reprodução. Pedagogia de Projetos é um processo. O caminho a ser percorrido nem sempre é o previsto. Costumo dizer que, se o projeto sai exatamente como foi planejado, há alguma coisa errada.

 

Quais são os equívocos mais comuns nos trabalhos de escolas que adotam a Pedagogia de Projetos?

Há escolas que trabalham com projetos a partir de datas comemorativas, como carnaval, Páscoa, festa junina, folclore, Dia da Árvore. Só isso não garante o desenvolvimento de pesquisas com o envolvimento dos alunos. Outro risco é o espontaneísmo. Os meninos vão fazendo o que querem, o que gostam, e o professor não segue nenhuma linha. Na Pedagogia de Projetos tem que haver um contrato, um combinado daquilo que se quer investigar e por quê. É algo que demanda estudo e envolvimento.

 

Como avaliar um projeto?

Entendo a avaliação como tomada de consciência do que acontece durante todo o processo. Por isso é muito importante que o caminho percorrido seja visualizado através de registros – nas paredes da sala de aula, numa pasta, nos cadernos dos alunos e em rodas de conversa, por exemplo. Ao avaliar, tomamos consciência do processo vivido, levantamos o que foi ou não aprendido. Assim, o trabalho pode ser retomado o tempo inteiro. Podemos parar e rever o que fizemos. Entender por que estamos fazendo isso ou aquilo. É importante ir demarcando quais competências estão sendo desenvolvidas. Quanto mais novo o aluno, mais importante é verbalizar o que está sendo feito. O tempo do projeto termina quando a problematização inicial é respondida.

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